26 de jun de 2011

Eu te amo.
─ Ah, é?
─ É.
─ Quanto?
─ O suficiente.
─ O suficiente? Essa é uma resposta nada romântica...
─ E não tá bom? Eu, hein. O ser humano e essa sua mania de querer sempre mais...

13 de jun de 2011

Apenas Mais Um Fim de Tarde.

Definir sentimentos é algo difícil. Mas eu acho que eu consigo definir bem o amor.
Eu diria que o amor é um sentimento estranho: às vezes você sofre, mas tá bem por sofrer. Você não tá com a pessoa, mas tá feliz porque ela tá feliz. A pessoa pode não saber que você existe, mas você tá feliz por saber que ela existe. É estranho isso, sei lá.
        E eu tava sentado lá no banco, esperando ele chegar.
─ Oi.
─ Oi ─ forcei um sorriso.
─ Tá frio aqui, né?
─ Estamos no inverno, faz sentido.
─ E aí? Como você tá?
─ Meio desconfortável. Fico meio desconfortável perto de você.
─ Sério? Você não me parece nada desconfortável agora. ─ Ele sentou do meu lado. ─ Aliás, você nunca pareceu desconfortável perto de mim.
─ É que eu minto bem. Sou um ótimo mentiroso, aí você nunca percebe quando eu tô mentindo ou não. É quase uma arte isso. Enfim, por que você me chamou aqui?
─ Lembra do André? Aquele meu ex, que veio depois de você?
        ─ Ahn... Acho que lembro. Lembro sim.
        ─ Então, ele falou que ainda me ama.
        Eu parei pra pensar. Afinal, que resposta eu poderia dar a isso?
        ─ Hmm, se vocês se gostam, por que vocês não ficam juntos?
        ─ Você tá mentindo.
        ─ Não tô!
        ─ E como eu vou saber? Você não é o Senhor Mentiroso?
        ─ Eu menti. Eu sou um péssimo mentiroso. Quando eu era criança mal conseguia enganar a minha mãe pra faltar à escola! Se eu tivesse mentindo, você definitivamente saberia.
        Ele riu.
        ─ Acho isso tão engraçado.
        ─ Isso o que?
        ─ Esse seu jeito de falar comigo. Como se você tivesse esquecido tudo que você passou por minha causa.
        Sorri sem jeito e respondi.
        ─ Não que eu tenha esquecido... eu só tento não lembrar.
        Depois de um rápido silêncio, retomei o assunto.
        ─ Mas então, a minha pergunta: por que vocês não ficam juntos?
        ─ Não é tão simples assim, sabe? Os oito meses que nós passamos juntos foram oito meses cheio de problemas. Além do mais, ele vai se mudar.
                ─ Se mudar?
                ─ É, ele vai morar do outro lado do país. Longe, sabe? Como vou me envolver de novo com alguém que vai morar no nordeste daqui a um mês? Pra eu ter uma recaída e sofrer ainda mais?
                ─ Ou não. Você pode aproveitar esse mês que falta, ficar com ele e ir colocando na cabeça que vai ficar tudo bem, ir se desapegando, até que ele vire mais uma lembrança.
`              ─ Prefiro não arriscar. Perto dele eu começo a suar frio, a tremer, e isso não é legal.
                ─É...
                ─ Você lembra de quando a gente namorava? Quando a gente veio nessa praça uma vez?
                ─ Lembro. Foi... legal.
                A essa altura ele já tinha percebido que algo estava errado. Gênio!
                ─ O que houve?
                ─ Nada... Eu só tô pensando. Pensando na vida, sabe?
                ─ No que, extamente?
─ Em tudo que a gente passou. Momento flashback na minha cabeça.
─ Foi bom,não foi?
─ Não sei.
─ Como assim não sabe?
─ Foram quatro meses muito bons pra mim. Mas ainda tô tentando decidir se sofrer dois anos por causa disso valeu a pena.
─ Desculpa por tudo que eu te fiz.
─ Detesto quando você pede desculpas.
─ Por quê?
─ Porque você acha que pode consertar o mundo com isso. E você não pode.
Silêncio por um tempo. Acho que nós dois estávamos procurando uma frase que casasse bem com aquele momento.
─ Nossa tô com muito frio ─ ele recomeçou.
─ Toma, pega meu casaco. ─ disse, já tirando ele do meu corpo
─ Não, tá maluco? Você vai sentir frio.
─ Não vou... tô morrendo de calor, na verdade.
─ Isso não vai caber em mim.
─ Claro que vai! Veste. Para de dar desculpas.
Ele vestiu. Ficou tão melhor nele do que em mim. E eu sorri.
─ Eu sou uma pessoa tão complicada ─ ele disse.
─ Todos somos complicados, uns mais, outros menos. Não é fácil de se entender as pessoas.
─ Minha vida é um fracasso.
─ A minha é bem pior que a sua e você não me vê reclamando. Tem gente pior que a gente.
─ Corrigindo então: eu sou um fracasso.
─ Você só é um fracasso porque se permite ser.
─ Nossa, que frase cafona.
─ Todo mundo tem seu momento auto-ajuda.
Eu sorri pra ele e ele sorriu. Nesse momento já estávamos um ao lado do outro, sentados, o mais próximo que podíamos. Eu sentia ele ali, do meu lado, e a cumplicidade que exalava de nossos corpos preenchia o ar. Eu nunca iria sentir frio com ele ali, transmitindo calor pra mim. Fazia esforço para não me mexer. Tinha medo que, se eu me movesse, perdesse todo esse contato. Estar ali com ele era tão bom... mesmo que acabasse.
─ Tudo que me aconteceu deixou meu coração como pedra sabe? Como se meu coração fosse um paralelepípedo desses aí no chão.
Olhei para o chão.
─ Com o tempo ele quebra.
Sorri pra ele, ele sorriu pra mim. Inesperadamente ele pegou na minha mão. Meu coração bateu mais forte e eu... eu não sabia o que fazer. Meu único pensamento era: “não solte, não solte...”
Silêncio por um certo tempo. Até que ele perguntou:
─ Por que a gente tá de mão dada?
─ Não sei.
─ Sua mão tá quentinha.
─ E é você que tá de casaco. ─ sorri.
E ele ficou sério. E distante.
─ Eu não deveria estar fazendo isso.
E eu só pude concordar.
Aí ele resolveu ir embora. Disse que já tava tarde, inventou qualquer desculpa. Me devolveu o casaco e foi. E eu fiquei ali, sentindo o cheiro dele na minha roupa, imaginando o que poderia ter sido aquele fim de tarde.